sábado, 6 de junho de 2009

Ela não é uma rainha.

Disse-lhe o espelho, quando ele se levantou naquela manhã fria, que ela não era uma rainha.
E o caçador coçou sua farta barba hirsuta, como se tal ato o fizesse entender que os anos de fato passaram. E que, afinal de contas, talvez já fosse tempo de entender que ela de fato não é uma rainha.
Mas, o caçador, solitário que é, desviou seus olhos fundos da frente do espelho.
E sentado na mesa da cozinha sozinho, a sua xícara de café amargo e o seu pão velho nada lhe opinavam ou sugestionavam sobre suas escolhas.
E após forrar o estômago com um pouco do pão velho e beber o último gole do café, sentiu um pequeno mal-estar.
Coisa da idade certamente.
Mas o caçador não pensou isso.
Pensou no espelho.
E voltou a lhe fitar os olhos.
E o espelho, numa última tentativa desesperada de se fazer entender lhe gritou: ELA NÃO É UMA RAINHA!
Mas o caçador já estava absorto em seus próprios pensamentos, em suas próprias lembranças.
E estava perdido em sua mente, lembrando do ardor que exalava o perfume dela.
Quando a porta se fechou, o espelho ficou na escuridão do casebre.
E lá fora o caçador separava seu machado e sua espingarda.
Estava muito frio.
Mas tinha sol.
Erguendo os olhos e encarando o sol por alguns segundos, o caçador pensou que aquele dia seria ideal para passar ao lado de sua rainha.
E o caçador está tão cego que da realidade que o envolta que, ao dar seus primeiros passos em direção à floresta, ri para si mesmo pensando na rainha que nunca existiu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário