domingo, 24 de maio de 2009

Jantar com a solidão

Pela maneira como ela se senta e se porta à mesa, era impossível acreditar que estivesse ali para me fazer o mal.

Mas, por mais inacreditável ou creditável que parecesse, ali estava eu, jantando. Em verdade, ali estávamos nós, jantando.

Ainda que ela estivesse a ocupar um lugar à mesa, era apenas eu ali. E eu ainda não podia saber exatamente o que ela estava fazendo ali.

Não tínhamos diálogo.

Não tínhamos pontos em comum.

Não tínhamos risadas para iluminar o ar sombrio e pesado.

Eu não tinha escolha.

Ela estava ali.

E ela me abraçava.

E a cada abraço dela, um pouco mais de dor se acentuava.

E cada vez que ela me beijava ou me punha para dormir, mais o teto parecia me tocar.

E as paredes se reduziam ao redor do meu corpo. Mas, por mais sufocante que fosse, por mais enclausurante que eu estivesse me sentindo, ali estava ela.. sorrindo para mim... ceifando meu leito...

E desta vez ela estava muito bem vestida.

E desta vez ela usava roxo. E os seus olhos estavam ainda mais indecifráveis.

Embora os olhos da solidão sejam profundos e extensos, de característica pura do abandono e do abandonado, alguma beleza neles existe e perdura.

E essa beleza, imbuída de morbidez, traição, loucura, remédios e insensatez, estava me fitando. E claramente ela sabia onde me tocar.

E agora, não eram apenas as paredes que se exprimiam e se apertavam. Tal ocorria também com o meu coração.

E o meu coração começava a dar claros sinais de que havia desaprendido o significado da convivência. E a palavra amor já não tinha sentido ou sentimento.

E então, pude concluir que ela havia feito o seu trabalho.

E constatei que ela não estava ali, de frente pra mim, apenas pelo jantar.

Constatei, com um leve sorriso no lábios, que a solidão havia encontrado o seu lar, bem aqui, junto a mim.

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