Aquele poeta, ao ler um livro de Cícero, sentiu em si, dentro de seu âmago, no mais profundo sentimento de seu coração, que necessitava se tornar um Homem.
Em sua jornada, claro lhe ficou que, para se tornar Homem, não bastava o porte de idade no documento de identificação.
Aquele poeta buscava ser Homem a fim de deixar um legado.
O poeta entendeu que legado não implica em riqueza material.
Aquele poeta pôde decifrar as palavras, suas entonações e formas como os outros homens a utilizavam. E notou que os homens comuns utilizam a palavra qualidade para definir coisas boas e más.
E percebeu que, por detrás das palavras, juntamente com a dubiedade, residia o sarcasmo, o deboche, o descaso.
Mas o poeta fixou-se em ser sábio, bom e justo.
E passou a questionar o valor e o sabor das coisas.
De todas as coisas. Desde o sol que nasce cedo, irrompendo a escuridão e clareando o infinito, da grama molhada, quase gelada, fria, tocando os pés antes de o sol nascer, até o sentar no chão de casa, a fim de se sentir no lar.
E o poeta saboreou todos esses momentos.
E pôde (pode) fechar os olhos e sentir o calor do sol enrubescer o seu rosto.
E abriu a camisa, para que a força do astro rei penetrasse o peito, ultrapassasse o espírito, curasse o sangue, torneasse a cor.
E essas coisas, que deveriam ser o grande alimento da alma, que são prazeres que tornam o Homem justo e bom, tal qual deseja incessantemente o poeta, ficaram em segundo plano na vida dos homens.
Mas não na vida do poeta.
Mas o poeta viu-se sozinho, admirando o sol, alimentando seu corpo com vida, enquanto um turbilhão atravessava sua casa, seu lar.
E viu o chão se abrir diante de seus pés.
E não pensou como talvez pensasse o Homem.
O poeta se deparou com a realidade de que preferia cultuar o sol, a ter de cultuar responsabilidades civis.
E as responsabilidades civis bateram à porta do poeta.
O poeta, agora, portava semblante amargurado. Alegava ter recebido lições dessa coisa chamada Vida. Mostrava as marcas nos braços: de fato, se não estivesse mentindo, o poeta passara momentos difíceis sob o manto da Vida.
Mesmo sem ser perguntado, o poeta insiste em narrar sobre como foi sagaz e feroz em sua jornada em busca das boas qualidades do Homem. E fala sempre que seu desejo, enquanto jovem, era ser como Cícero definia o Homem: ele deve observar todos os fatos da vida, todos os acontecimentos ao seu redor, todas as possibilidades de intervir na realidade e a transformar, observar toda e qualquer chance, oportunidade, seja lá o que for, e, quando estiver frente a frente com esse fato, dessa escolha, olhar para si e questionar: isso é justo e bom?
Porque defende o poeta que, de nada adianta um valor ser justo mas não bom. Pois se assim for, insignificante o é. E defende, também, que nenhuma valia existe no fato de ser bom, mas não justo. Porque isso ampararia os opressores.
O poeta se pergunta se já se tornara um Homem, justo e bom.
E o poeta baixa seus olhos, reconhecendo, em silêncio, que possui o conhecimento, mas ainda não o sabe aplicar.
O poeta não sabe a idade que tem.
O poeta vê-se jovem, mas raciocina como um experiente adulto.
O poeta sente-se velho, mas tem o vigor de um adolescente.
O poeta se contradiz: ele acha que acredita no amor. Mas ele não tem certeza se existe o amor. O poeta, também, não sabe o que é o amor.
E o poeta não quer ser matemático.
O poeta não aceita que o amor seja uma equação.
O poeta quer poder olhar para aquela mulher que representa o amor!
O poeta entende que o "sentimento amor" é diametralmente oposto ao "racional amor".
O poeta não consegue construir seu próprio entendimento sobre o que é o amor. Porque todos falam o que pensam do amor. Porque todos não sabem o que é o amor. Porque o amor parece requerer das pessoas, no mínimo, elas mesmas.
E o amor não possui manual. E não possui medidor.
O poeta desprezaria o medidor de amor. Mas fatalmente faria uso do mesmo, ainda que somente pelo senso investigativo e curioso.
E eis que o poeta se deu conta de que não bastava apenas palavras para lhe garantir a vida.
E eis que esse poeta se apaixonou.
Os poetas também se apaixonam.
E enquanto tentava desvendar o amor, enredou-se nas garras da paixão.
E a paixão sangra o coração.
A paixão é avassaladora. E traiçoeira.
E eis que a paixão se foi.
E o poeta ficou com algo dentro de si que denominou de sentimento.
Esse poeta, amante do raciocínio, disse a si mesmo que poderia viver sem a sua paixão.
O poeta também fica cego.
O poeta lançou mão de seus sentimentos. E ergueu uma barreira ao redor de seu coração.
Esqueceu, porém, que não é Senhor de si mesmo.
E o poeta sentiu a falta da sua paixão. O poeta sentiu a falta do amor. O poeta sentiu falta de ser amado. O poeta sentiu falta de poder cuidar. O poeta sentiu falta de ser cuidado. E sentiu, sobretudo, falta de poder partilhar.
O poeta abraçou-se aos seus livros e a sua cultura... E estes não alimentaram sua alma.
O poeta dedicou-se a fazer coisas que nunca tinha feito... E se sentiu vazio.
E então, o poeta pôde entender qual era o verdadeiro problema que o atormentava: ele tinha se apaixonado por Vênus.
E Vênus se interessou pelo poeta!
E os dois arderam juntos.
E se olhavam no escuro e podiam se enxergar um ao outro.
E o poeta dedicou suas melhores palavras aos olhos dela. E ela o inundou de charme e prazer.
E o poeta viu que Vênus o fazia sorrir.
E o poeta abriu a porta de casa, de madrugada, e foi caminhar na grama úmida. E aguardou o sol chegar. E quando o sol chegou, ele informou à Vênus o que acontecia. E Vênus, ainda que deitada e dormindo em sua cama, em sua casa, se sentiu feliz por saber, por partilhar.
E Vênus admirou o poeta pela sua sede e naturalidade em partilhar seus momentos.
E Vênus esqueceu quem era, e dedicou-se ao poeta.
E acreditou que o poeta fosse um Homem.
E o poeta acreditou estar tornando-se um Homem. E se orgulhou, vendo Vênus deitada ao seu lado, em seus braços, satisfeita.
Mas um dia, o vento soprou diferente. E neste mesmo dia, Vênus levantou-se sentindo diferente.
E o poeta sentiu esse algo diferente na vibração do ar, nas palavras de Vênus.
E o poeta não sabia se deveria fazer algo a respeito ou se simplesmente deveria esperar.
E preveu seu futuro. E sentiu arrepios e o prenúncio da tristeza.
E assim como os dias passam, assim como as horas giram, assim como as estrelas morrem, ela se foi.
Assim.
Como se fosse natural.
Como se fosse normal.
E o poeta planejava um banquete, com música e danças, com vinho para sua Deusa, e encontrou o quarto abandonado. E, naquele instante, de joelhos, perdeu os sentidos.
O poeta enlouqueceu.
O poeta se descontrolou.
O poeta maldisse a Deus.
E rasgou suas vestes e odiou os deuses.
E pensou em se arrepender de todas suas palavras, todos seus atos, todas suas intenções.
E quando estava diante da iminência da morte, recuou.
O poeta tentou se convencer da impossibilidade de amar uma Deusa.
Mas o poeta não achou racional abdicar do que sentia.
E antes de abrir os olhos, o poeta mergulhou em dor.
E sonhava com sua Deusa sendo tocada por homens baixos.
E se desesperava por não saber o que sua Deusa estava fazendo.
E se desesperava por não saber com que companhias sua Deusa fazia uso.
Com as lágrimas, o poeta se encontrou. A angústia, o esmagamento do peito, findaram por se tornar sua rotina.
E o poeta questionou tudo de novo. E não obteve nenhuma resposta.
E viu que estava perdido como não imaginava estar.
E um dia, perambulando pelas ruas frias, viu Vênus bebendo vinho.
E seu coração disparou. E sentiu sangue quente correndo em suas veias. E não pôde aceitar que tais acontecimentos nada tivessem a ver com Vênus. E a chamou.
O poeta sempre se encantou com a beleza de Vênus. Da forma como brilham os seus olhos na penumbra, da forma como seus cabelos parecem ouro, da forma como seu corpo é imensamente perfeito, da forma como sua pele exala um cheiro doce, da forma como o seu gosto é inenarrável. Mas, naquela noite fria, Vênus estava demonstrando estar próxima à perfeição, e o poeta cambaleou e se inebriou de tanta beleza.
E o poeta questionou o que fez de errado, para Vênus ter ficado ainda mais tão linda longe dele.
E o poeta sentiu ter perdido.
E voltou a sentir dor e a se sentir sozinho. E sem ter com quem partilhar.
E por mais que digam que deveria esquecer Vênus, o poeta não está ignorando o que sente.
E o poeta sabe que, o que está sentindo, não é simplório. Não é simplesmente humano.
O poeta sabe o que quer em relação ao amor. O poeta quer ficar junto à Vênus. O poeta quer repousar nos seus seios suaves.
O poeta quer admirar Vênus deitada e adormecida.
O poeta quer poder acordar e ver Vênus nua com feições de sono.
O poeta quer voltar a se sentir vivo.
A questão é que dizem que deuses e homens não podem viver juntos, não podem se amar.
O poeta não é só mais um homem qualquer.
O poeta está buscando se tornar um Homem.
E o poeta ignora o que os outros dizem.
Porque o amor não vem em receituários.
E ninguém pode dizer quem pode e quem não pode amar.
Ninguém pode sentenciar que uns serão felizes e outros amargarão o fel da vida.
O poeta quer se dedicar à sua Deusa.
Ele está ciente da possibilidade de sentir dor. De sentir tristeza. De querer morrer de novo.
Mas ao menos o poeta acredita estar fazendo o que é verdadeiro.