terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Da certeza da dúvida

O velho lobo não consegue acalmar o seu espírito.
O velho lobo range seus dentes involuntariamente.
O velho lobo não consegue mais ficar escondido sob a capa de cordeiro.
O velho lobo está uivando.
Está gritando.
E está perdido em um emaranhado de confusos sentidos e sentimentos.
O velho lobo está uivando em dúvida.
Esse sangue fervilhando sob a pele o está deixando louco.
O velho lobo: um carnívoro voraz mordiscando mato para saciar-se.
Totalmente em afronta a si mesmo.
Mais que tudo o desejo do velho lobo é se vir livre. É se vir liberto para correr. E morder. E voltar a ser o velho lobo.
Faminto e voraz.
Sozinho e confuso.
Manso e assassino.
Mas quer, sobretudo, deixar de estar eivado de dúvidas e ausente de respostas ou lugar para procurá-las.
A questão é muito mais profunda do que aparentemente as palavras puderam expressar.
Trata-se de dúvida elementar; de viver. De ser. De saber.
Um velho lobo não pode esquecer quem é.
O velho lobo não pode perder a voracidade no olhar. Nem olvidar do tremor que apregoa sua compleição física.
E do que realmente se trata?
Trata-se do uso de máscaras morais.
De fantasias sociais.
De pura representação.
De representação social para vossa sociedade.
Enquanto o lobo lá fora se prepara para me atacar - porque é o que tem de fazer - eu continuo aqui, ante a iminência suprema da morte. E estou assim, prestes a morrer e não sei o que fiz.
Não sei o que deveria ter feito. Ou o que eu deveria ter sido. Ou o que eu deveria ter dito.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ensaio: Da cegueira subitânea e do Desejo

Apalpar no escuro;
nada achar.
Perambular pelos cômodos da velha casa intentando reconhecer algo;
nada constatar.
Procurar reconhecer pela audição;
ainda não aprendeu a usar o sentido.
Ouvir o silêncio.
Amar o tato.
Aprender a andar.
E só teu corpo eu quero conhecer de cor.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Narrativa

Ouvi no rádio sobre uma peça teatral, ou espécie dela, um "stand up drama", uma história mais ou menos assim:
A personagem era uma mulher contanto sua vida. Vivia esquecendo as coisas. Desde criança. Perdia as bonecas. Os brinquedos.
Um dia, na sua infância, entre as meninas era moda usar na escola um casaco que acompanhava um pequeno chapéu a título de acessório.
E, febre que era tal casaco com chapéu, a menina insistiu para a mãe que lhe comprasse. A mãe, sempre relutante, insisita em não comprar porque a menina certamente perderia o chapéu. A menina insistiu, insistiu e insistiu até que a mãe finalmente lhe comprara o tal casaco.
No primeiro dia que usou o presente, na volta da escola, ao chegar em casa deu-se por falta do chapéu.
Imediatamente subiu para o quarto e guardou o casaco no armário.
Quando desceu as escadas, viu seu pai sentado na poltrona, e este lhe sorrindo ternamente disse:
- Querida, ponha o seu casaco novo e o chapéu para que eu veja como ficaste.
A menina foi ao quarto e voltou vestindo o casaco. O pai, em sorriso ingênuo, diz:
- Ponha também o chapéu querida.
A menina disse que o faria depois, porque o chapéu estaria guardado.
Nisso, o pai se levantou e caminhou em direção a menina, lhe desferindo um forte soco na cara.
A menina foi arremessada até a parede tamanha força do murro.
A mãe, ao ouvir o estrondo, correu até a filha, desesperada, perguntando aos gritos ao marido o que teria feito.
O pai, então puxou o chapéu do seu bolso e em olhar fixo para a menina falou:
- Isso é para tu aprenderes a não mentir e não mais perder tuas coisas.
Toda história se passa em primeira pessoa e a personagem termina a peça assim:
- O que meu pai me ensinou com aquela atitude naquele momento, enquanto eu sentia pela primeira vez o gosto do sangue na garganta, não foi eu deixar de perder as coisas, mas sim nunca mais confiar no doce sorriso dele.